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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Os olhos e os ouvidos do Imperador.......



Crónica de CLARA PINTO CORREIA


Noutro dia liga-me (via kolmi,
evidentemente) o meu filho
mais velho, com dezasseis
anos, que foi de fim de
semana alargado com uns amigos
para Madrid. A conversa não fazia
grande sentido para mim, mas
para ele de certeza que fazia, dada
a enorme decalage que existe hoje
entre o português e a gramática
usados pelos pais e o português e a
gramática usados pelos filhos.
- Mãe, o Multibanco que tu me
deste não está bom.
- Não está bom como? Tem funcionado
perfeitamente desde que
saíste de Lisboa.
- Pois, mas agora estou aqui em
Madrid, tenho fome, quero comer,
preciso de apanhar a camioneta
para Lisboa, e ele não está bom. O
bonequinho diz que ele não está
bom.
- Ó meu grande inconsciente, e
tu por acaso não gastaste já todo o
dinheiro que eu pus na tua conta?
-Não, mãe. Juro por Deus.
- Deixa lá Deus descansado.
Não pode ser essa caixa de multibanco
que está fora de serviço?
-Ó mãe, mas eu já fui esta manhã
a bué caixas, já tentei bué cenas,
mas isto deixou de funcionar,
tens que ver o que é.
- Então e não podes pedir dinheiro
emprestado a um dos teus
colegas para umas bolachas e um
bilhete de camioneta e a gente cá
faz contas e eu, entretanto, tranquilamente,
vejo o que se passa?
- Oh mãe, eles já estão os dois
sem dinheiro. Só eu é que ainda tinha.
Conseguem convencer-nos de
tudo, os nossos filhos.
Eu, que tinha planeado ficar calmamente
em casa a trabalhar com
as janelas todas abertas para fazerem
uma saudável corrente de ar,
lá me atravessei pelo meio do calor
da tarde para ir à minha agência.
Com tanto azar, nem o gerente
nem o meu gerente de conta lá estavam.
Àquela hora, estava só
mesmo um rapazinho estagiário
colocado ali durante o Verão. Mas
adiante, bolas, que o meu filho precisa
de comer e de apanhar a camioneta.
O jovem estagiário faz-me um
grande sorriso e eu lá lhe expliquei
a situação misteriosa
do cartão que de repente deixou
de funcionar em Espanha.
O jovem pede-me o nome do
miúdo e o número da conta dele, e
depois começa a fazer clics com o
rato. Às tantas, depois de inspeccionar
atentamente uma página de
dados, faz um sorriso daqueles
mesmo muito malandros.
Minha senhora, diz ele, o seu filho
não está em Madrid. Está em
Portimão.
O quê? Mas ele telefonou-me de
Madrid ainda há cerca de meia
hora!
E como é que a senhora sabe que
foi mesmo de Madrid que ele telefonou?
Então, pois se fui o que ele me
disse...
E o estagiário,como se fosse ele
que tivesse lições para me dar a
mim:
Mas a senhora não pode ser assim
tão crédula com filhos adolescentes
de dezasseis anos. Olhe
bem para isto.
Vira o monitor na minha direcção
e aponta para o final de uma
das colunas com a ponta da lapiseira.
Está a ver estas quatro entradas?
São todas de hoje de manhã, e, de
facto, a última foi há cerca de uma
hora. Quatro multibancos diferentes
de onde ele tentou levantar dinheiro,
todos em Portimão. Ontem,
olhe aqui. Jantou neste restaurante
chamado Superpeixe e pagou
uma conta que parece
claramente de duas pessoas. Isto
confirma-se se formos à compra
imediatamente anterior, às 19 do
mesmo dia, um biquíni brasileiro
da loja Poucaroupa. Aliás, bastaria
olharmos para as dormidas:
duas noites na pensão Oásis, quarto
duplo, cama de casal. Ah, e repare
no bilhete de camioneta que
ele comprou na sexta-feira: está
aqui claramente indicado que é de
ida e volta. E oiça, minha senhora,
não se passa nada de errado com o
multibanco dele. O rapaz apenas
já gastou todo o dinheiro que a senhora
lá pôs para ele. Mas tem um
bilhete para voltar hoje ao fim da
tarde. Se lhe veio com essa conversa,
provavelmente é porque ainda
quer comprar mais uma prenda de
luxo para a namorada antes de se
virem embora.
Qual namorada?.
Então, minha senhora? Cama
de casal numa pensão, biquinis
brasileiros,jantarinhos para dois...
é evidente que o seu menino foi visitar
uma namorada a Portimão e
lhe contou uma história sobre ir
com dois amigos a Madrid!
Bom. Claro que o meu rapaz ouviu
ali pela medida grande. Mas a
mim, francamente,o que me incomoda
não são estas patetices de
manual que os rapazes fazem. O
que realmente me incomoda é
pensar que, hoje em dia, até um
estagiário de um banco, com pouquíssima
informação à partida,
pode em dez minutos saber precisamente
onde estamos, onde estivemos,
o que é que fizemos,tirar
ilações e fazer juizos de valor.
É o
lado escuro do admirável mundo
novo electrónico, em que todos
tendemos a não pensar, mas com o
qual todos perdemos completamente
a privacidade.

(Recebi por mail-JNotícias/Hist Meu Mundo/Joseph)